Publicado em Café com Letras

Tititi do Café com Inês Gandolfo

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Poema das Sete faces

Drumond

Desta vez foi difícil escolher o poema com que tradicionalmente abro nossas conversas e introduzo o tema do dia.

Não falta literatura, prosa e verso, sobre as drogas, incluídos os quotidianos álcool e o tabaco, e nossa relação, não raro ambígua, com elas.

Felipe Fortuna, um dos nossos bons jovens poetas, observa, com propriedade, no seu blog Cronópios:

“As drogas […] não servem apenas aos projetos de fuga da realidade ou de alheamento: na literatura, têm fortalecido convicções e contribuído para encontrar o foco preciso. A literatura ensina a ver com outros olhos tanto os “paraísos artificiais” quanto “a paisagem zero”, com promessas de muitas recaídas.”

 

Um dos grandes poemas no primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, o conhecidíssimo Poema das Sete Faces, é um belo exemplo:

 

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”